O programa de televisão Ídolos do canal SIC propõe-se descobrir o novo talento português da música pop. Numa primeira fase percorre o país para a realização de castings onde são explorados os chamados "cromos" que perseguem um sonho de virem a ser cantores sem terem o talento necessário para tal. Numa segunda fase são feitas "Galas" onde os finalistas são explorados semanalmente até à exaustão, ou seja, até à última gala, sujeitos a pressões que muitos profissionais possivelmente não aguentariam. Finalmente numa 3ª fase onde os finalistas são explorados numa tournée nacional. E basicamente é o que tem acontecido até esta edição.

 

No entanto, a 3ª edição do concurso ídolos teve uma novidade em relação às anteriores: teve sucesso! Esta edição dos Ídolos foi a que teve mais audiência de sempre, mais participação de sempre, julgo estarmos até perante um case study devido ao momento tão negro que vivemos de crise da música nacional e internacional. Quando todos os intervenientes da música prevêm o fim da industria, como é possível todo este hype em torno de um programa musical?

 

Nesta edição dos Ídolos apareçam as inevitáveis Beyoncés, ABBAs, Gala Michael Jackson, Anjos, Madonnas, Rihannas, Nelly Furtados, etc. Mas desta vez desfilaram um conjunto de temas musicais que supostamente não deveriam estar enquadrados num programa que procura um ídolo da música pop:

 

 Radiohead - High and Dry
 Nirvana - Lithium
 Skunk Anansie - Hedonism
 Smashing Pumpkins - Disarm
 Bjork - It's Oh So Quiet
 The Cure - Boys Don't Cry
 Ornatos Violeta - Ouvi Dizer
 Pearl Jam - Better man

 

Mais surpreendente ainda foi ver que o vencedor desta edição dos Ídolos não foi o icon pop que deveria de ter ganho (Carlos) mas sim o outsider Filipe, representante de um estilo nada pop!

 

Um dos elementos do juri bateu bastantes vezes na tecla do "Vocês deviam era de cantar em português" com o argumento de que o português é a nossa língua. Mas mesmo não cantando em português o programa teve sucesso.

 

O mesmo elemento do juri tocou também na tecla do "a pirataria está a matar a música", mas neste caso ajudou o programa a crescer, com os videos do programa a serem espalhados na internet.

 

A explicação para este sucesso pode não ser só uma. Podemos encontrar várias explicações para o sucesso do programa, mas para mim tudo se resume a um factor: Qualidade. Esta edição dos Ídolos primou pela qualidade e em algumas ocasiões, pelo bom gosto musical, ainda mais quando estamos a falar de jovens com 15, 16, 17 anos que impressionam pela sua cultura musical, fugindo aos lugares comuns da música mainstream.

 

E julgo que esta explicação se aplica também a outros campos do mundo da música, nomeadamente à crise da musica nacional. Não vale a pena obrigar ninguém a cantar em português ou noutra língua qualquer quando não tem nada para dizer. Cantar não é despejar em tom afinado um conjunto de palavras vazias mas sim contar uma história, um sentimento e vivê-los enquanto se canta e foi isso que o Filipe fez, em inglês, em português, em francês, com lalalas. E para isso é preciso talento, ser-se humilde e mais uma vez o Filipe tem tudo isso dentro de si.

 

Foi muito curioso ver o grande Pedro Abrunhosa a cantar ao lado do pequenino e inexperiente Filipe o tema "Não sei quem te perdeu". Quando acabaram as suas interpretações corrigimos rapidamente a frase para pequenino Pedro Abrunhosa e grande Filipe! O Pedro Abrunhosa não sabe cantar, nunca soube, mas querem fazer-nos acreditar que o Pedro Abrunhosa é um grande artista e enquanto o fizerem estão eles próprios a matar a música portuguesa. Pedro Abrunhosa poderia dedicar-se por exemplo a ser letrista onde se lhe reconhece valor.

 

Também cantaram no programa esses monstros da música nacional que são os GNR, outros que nos querem enfiar à força pela goela abaixo. Do alto dos seus 30 anos de carreira ainda não aprenderam quais as verdadeiras motivações para estar no mundo da música.

 

É impossível vender lixo, mesmo com muito marketing e com muitas lamentações e lamúrias, que a pirataria é que é a má da fita e que as rádios não passam música portuguesa. Esquecem-se que falta uma coisa: qualidade. Ninguém vai ouvir musica portuguesa só porque é portuguesa!

 

E há projectos musicais portugueses que têm qualidade, e não vale a pena quererem formatar os gostos das pessoas, tudo é vendável se tiver aquele pequeno pormenor: qualidade.

 

Nesta edição dos Ídolos foi o que aconteceu, venceu a qualidade (Filipe) em detrimento da mediocridade da música formatada e desprovidade de conteúdo (Carlos). E foi a qualidade dos concorrentes como o Filipe que fez o sucesso do programa Ídolos.

Força Filipe!


 

 

publicado por alternativenation às 00:17